• J. Robson J.

G R E G

Um conto de terror natalino


O sol despontava no horizonte, mas ele já caminhava há algum tempo pela estrada desconhecida. Os carros passavam em alta velocidade sem se preocupar com aquele que andava à margem da estrada, à margem da sociedade, à margem da vida, afinal, o que era ele? Nada, simples assim, nada!


Caminhava cansado, com ombros caídos, olhos vermelhos, olhar vazio e perdido no nada.

Cabelos desgrenhados, barba por fazer... talvez há anos, roupa suja, pés descalços imundos e enormes unhas pretas. No pensamento? Nada de útil, aliás, pensar para que? Não havia nada pra pensar, nada para lembrar, apenas um vazio dolorido e intransponível. Não sabia se tinha esposa, filhos, amigos, não sabia se tinha casa, de onde vinha e nem para onde ia.


Não sabia sequer o seu nome, então, para que pensar?


Caminhou por mais alguns minutos quando ouviu uma freada busca e um baque violento acompanhado de um grito que não parecia humano.


O carro seguiu em frente deixando no acostamento o cachorrinho moribundo. Ele se aproximou do pobre animal que chorava, sentou ao seu lado e o observava curioso. Não sentia pena, apenas curiosidade em saber exatamente o que estaria acontecendo com ele. A imagem do pobre animal morrendo lentamente exercia certo fascínio sobre ele. Como um autômato passou a mão na cabeça dele e o cachorrinho o lambeu agradecido.


Ele ficou ali, por minutos, observando o cachorrinho que morria aos poucos. Sentiu o estômago roncar e pensou em comer o pobre animal, mas não o fez, não por dó porque não conhecia este sentimento, e nem por princípios porque desconhecia o que significava isso, e sim por não ter como cozinhar o bicho.


Levantou e seguiu caminhando de olho na pequena cidade que estava pouco à frente.


Minutos depois com o sol alto em suas costas entrou na cidade e olhou fascinado os enfeites nas casas e nas ruas. Chegou até o que parecia ser o centro da pequena cidade e não deixou de perceber a agitação nas pessoas e ouviu alguém falando sobre algo parecido como “noite de natal”. Apesar de não saber o significado daquilo, sentiu um arrepio percorrer o corpo.

Estava faminto e sentou em um banco na praça observando as pessoas que passavam felizes, bem alimentados e com suas famílias.


Ficou ali muito tempo até que percebeu um casal conversando e olhando para ele. A mulher saiu, entrou em um restaurante e minutos depois saiu de lá carregando uma marmita, se aproximou dele e lhe entregou a comida desejando um feliz natal.


Ele olhou para ela, pasmo por tamanha beleza e simpatia, conseguiu sorrir, pegou a marmita, agradeceu e comeu avidamente enquanto a mulher voltava para junto do marido.


No final daquela tarde, o mesmo casal se aproximou e o homem lhe disse que gostariam que passasse a noite de natal com eles. Tratava-se de uma antiga promessa. O homem ainda disse que haviam lhe comprado roupas novas e calçado. A mulher, gentilmente, lhe estendeu a mão, segurou a sua e o levaram para um carro estacionado ali perto. Ele se deixou levar e entrou na parte de trás do carro e o marido sentou ao seu lado. A mulher assumiu o volante e ao lado dela sua filha de quinze anos que olhou para o estranho com medo e nojo. Estava visivelmente irritada com a decisão dos pais de levar aquele estranho para casa.


Durante o percurso a menina seguiu com os dedos no nariz para evitar o cheiro fétido que emanava do estranho homem.


O pai da menina olhou para ele e perguntou.


— Como é seu nome?


Ele hesitou.


— Eu não sei... não me lembro.


A menina riu alto e a mãe a repreendeu. O pai arqueou as sobrancelhas e falou.


— Ok. Mas, precisamos de um nome para você... podemos te chamar de Gregório?


A menina gargalhou e novamente foi repreendida pela mãe.


O homem balançou a cabeça concordando e a mulher ao volante falou.


— Greg... para ser mais fácil.


E o marido concordou.


— Isso! Greg! Está bom para você?


O mendigo concordou com um movimento de cabeça e seus lábios sussurraram o nome.


— Greg. Greg, sou o Greg... gostei.


Quando chegaram a casa, ele conheceu o filho de treze anos do casal que estava com um amigo da mesma idade na casa.


O homem o levou para tomar banho e providenciou sabonete, toalha e as roupas novas.

Greg ficou fascinado pelo chuveiro, sentiu um prazer enorme e se questionou porque não poderia ter sempre um prazer como aquele. Demorou quase uma hora se lavando, se ensaboando, deixando a água escorrer pelo rosto, pelo corpo, se deliciando, curtindo o momento mágico e raro.


Abriu a porta do box, pegou a toalha, saiu e começou a se enxugar, então, a viu. A menina, a linda menina, estava ali, dentro do banheiro e o olhava movendo seus olhos para o corpo nu. Então, ela começou a rir e sua risada se transformou em uma gargalhada. Ela ria e jogava a cabeça para trás e para os lados balançando os enormes e lindos cabelos e ele ali sentindo o que nunca havia sentido, vergonha. Ela gargalhava mais e mais, então, de repente, sua garganta estava cortada e esguichava sangue. Ele escancarou a boca surpreso, sentiu tonturas, tudo estava rodando e sangue espirrou em seu rosto. Fechou os olhos e quando abriu ela não estava mais ali mas, havia monstros, cobras com diversas cabeças e ele sentiu medo, pavor, tudo rodava, havia pessoas gritando, chorando, rindo e os monstros se aproximavam dele.


Com dificuldades cambaleou até o vaso sanitário, sentou e fechou os olhos. Tudo ficou silencioso mas, sentia medo de abrir os olhos. Respirava ofegante e depois de alguns segundos os abriu e viu a mulher linda, a mãe da menina. Ela estava ali, ou melhor, sua cabeça... em cima do lavatório, degolada... e o corpo caído ao chão em uma poça de sangue.


Ele ficou olhando... agora estupefato e maravilhado com a beleza daquela cabeça. Os monstros haviam desaparecido. Então batidas na porta do banheiro o assustaram.


— Greg? Greg?


Ele demorou para entender e sair do seu torpor.


— Greg? Está tudo bem?


Olhou para a linda cabeça, fechou os olhos e respondeu.


— S-sim...já estou saindo.


Abriu os olhos e a cabeça e o corpo não estavam mais ali. Estava sozinho no banheiro.

Terminou de se enxugar, se vestiu e saiu. Foi até a sala e encontrou a linda menina que fez uma cara de nojo quando o viu e saiu resmungando.


Ele ficou em um canto, quieto, observando a movimentação e de vez em quando o homem ou a linda mulher se aproximavam para falar com ele ou levar algo para comer.


Um casal de amigos chegou para passar a meia noite com a família, o olharam com desconfiança e se afastaram e durante a noite toda mal se aproximaram dele.


Greg se perguntava porque não tinha nada daquilo como chuveiro, casa, comida, bebida, família, amigos, risadas...


Pouco antes da meia noite, estava sentado sozinho em um canto da sala com os olhos vermelhos olhando para o nada. Fogos de artifício estouravam e o assustavam ainda mais.

Por duas vezes, desde o banho, avistara os monstros. As pessoas ali não eram legais, escondiam monstros pela casa.


Ele viu quando a linda mulher entrou na sala trazendo uma grande bandeja com um enorme peru. Ela olhou para ele e sorriu o mais lindo dos sorrisos. Colocou a bandeja na mesa e saiu e Greg viu algo que o hipnotizou. Ele se levantou, olhou para os lados e caminhou até a mesa que já estava repleta de bandejas e potes com guloseimas e frutas. Haviam também pratos, copos, taças e talheres. Ele nunca havia visto uma mesa tão bonita e com tanta comida, sentiu um aperto no peito por nunca, pelo menos que se lembrasse, ter tido aquilo e uma voz dentro de sua cabeça falou para não pensar nisso, já que sua missão já estava definida.


Greg olhou para os lados novamente para se certificar que estava sozinho e, lentamente, foi se aproximando da mesa de olho naquilo que o interessara tanto. Estendeu a mão e, nesse momento, a menina entrou na sala e ele recolheu a mão rapidamente. Percebendo o movimento ela olhou para o peru e depois para ele com uma expressão irritada e depois balançou a cabeça, riu com vontade e falou de forma irônica.


— Cara, não dá para esperar não? Isso é falta de educação sabia? Além do mais, tire essas mãos imundas da mesa...


E saiu rindo.


Ele sentiu raiva da menina, hesitou um pouco e depois, mais uma vez, levou a mão lentamente com medo que mais alguém entrasse na sala e pegou o objeto que tanto o atraíra. Saiu de perto da mesa com o objeto de desejo nas mãos e o contemplava em êxtase.


Voltou para onde estava e quando ouviu vozes se aproximando escondeu o objeto embaixo da camisa para, em seguida, se levantar e disfarçadamente colocar por dentro da calça. Sorriu feliz e misteriosamente e seus olhos vermelhos brilharam. Alguns minutos depois, novamente, se assustou com as explosões dos fogos de artifício, agora em maior quantidade. Houve gritaria na casa e todos correram para fora para admirar a beleza dos fogos que produziam desenhos no céu.


Ele ficou quieto em seu canto, sozinho, então a linda menina entrou correndo, passou por ele e foi até o quarto pegar o celular para tirar fotos. Quando se virou para sair do quarto, viu algo que a estarreceu, a paralisou. Greg, parado na porta do quarto.


Ela se recompôs e tentou falar com um forte tom de voz.


— Mas, o que é que está fazendo aí? Quem disse que pode vir até o meu quarto? Saia da minha frente agora mesmo.


Sua voz tremeu mais do que gostaria.


Ele apenas a olhava e seus olhos vermelhos pareciam brilhar fortemente, antegozando o iminente prazer.


— Saia agora, ou vou gritar para o meu pai.


Ele deu um passo em sua direção e ela sentiu mais medo e teve certeza que havia algo errado com o mendigo e gritou para o pai, mas uma série de fortes explosões abafou sua voz e Greg caminhou para ela. A menina sentiu o coração disparar, o pavor tomou conta dela e a fez tentar correr para se livrar da ameaça que o mendigo de olhos vermelhos representava. Mas, ele foi rápido e a agarrou no momento em que tentava passar por ele. Ela gritou desesperadamente quando ele a jogou na cama e retirou uma enorme faca de dentro da calça. A mesma faca que sua mãe deixara na mesa para fatiar o peru.


Ele se jogou sobre ela e passou a faca em sua garganta e ficou olhando deliciado o sangue esguichar do enorme corte. Ela tentou gritar, tentou respirar, mas só conseguia fazer mais sangue sair pela garganta. Nesse momento a mãe entrou no quarto procurando pela filha que estava demorando e quando viu a cena gritou horrorizada e antes que pudesse fazer algo, Greg já estava ao seu lado e enfiou a faca até o cabo em seu peito. Ela o olhou com um misto de raiva, de indignação, de dor, de medo e de surpresa. A dor era intensa, mas ela ainda teve tempo de ver a filha se levantando da cama, espirrando sangue pela garganta e caindo ao chão logo em seguida.


Greg retirou a faca e olhou para a linda mulher que, agora, também o olhava e enterrou a faca mais uma vez. Ela caiu e Greg se abaixou ao seu lado e decepou sua cabeça. A pegou pelos cabelos e levou até a cômoda para observar sua obra. Ele estava admirando o belo rosto quando o garoto entrou no quarto e parou estático com a cena que viu. Greg correu até o garoto e o puxou mais para dentro do quarto. Em choque o menino sequer abriu a boca para gritar e olhava para a irmã caída ao chão e para a surreal visão da cabeça da mãe. Foi quando sentiu que Greg tapava sua boca com uma mão e com a outra abria sua barriga. Antes de cair o garoto ainda teve tempo de ver suas entranhas saindo pelo enorme talho provocado pela faca de fatiar peru e assim que caiu, Greg soltou sua boca e esfaqueou novamente, agora bem no coração.


Ele olhou para a faca e sorriu. Agora poderia matar os monstros e as cobras de múltiplas cabeças.


Limpou a faca na camisa, se aproximou do rosto da linda mulher, da mulher mais linda que já havia visto na vida. Ficou ali a admirar aquele belo rosto até que percebeu que as explosões haviam parado e podia ouvir vozes entrando na casa. Era o marido e o casal de amigos. Mais três monstros para serem eliminados. Saiu do quarto e o dono da casa, ainda rindo, o viu no corredor.


— Greg? O que estava fazendo?


Só então viu a enorme faca na mão de Greg e antes que pudesse reagir, a faca atravessou seu pescoço. Ele engasgou, tentou respirar, tentou se manter consciente, tentou tirar a faca, mas foi Greg quem tirou para enfiar uma, duas, três vezes em seu peito e ele caiu morto.


O casal amigo perguntou da sala se estava tudo bem e Greg foi para lá. Estavam sentados à mesa e Greg foi tranquilamente até a porta da sala e a trancou.


O homem se levantou da mesa enquanto a mulher o observava curiosa.


— Ei? O que está acontecendo?


E Greg se movimentou com uma incrível rapidez e enterrou a faca no peito do homem, que gritou de dor ao mesmo tempo em que sua esposa gritava horrorizada, mas os vizinhos não ouviram os gritos, afinal estavam todos festejando a noite de natal.


Ele retirou a faca do peito do homem, que caía lentamente, e sua esposa tentou sair correndo, mas Greg a alcançou e a esfaqueou pelas costas uma, duas, três, quatro, cinco, oito, dez, vinte vezes, então, exausto, parou.


O marido, esfaqueado no peito, chorava e morria lentamente. Greg foi até ele, sentou ao seu lado e ficou observando até que o homem morreu.


Greg levantou, com a mesma faca que matara a todos, tirou diversas fatias de peru e comeu. Depois experimentou a torta, a farofa, bebeu vinho, experimentou os doces, levantou e foi deitar, mas antes pegou a cabeça da linda mulher e a levou para a cama com ele. Dormiu um pouco e, ainda escuro, levantou, colocou bastante comida em uma bolsa, pegou a faca, sua amiga, e saiu.


O sol despontava no horizonte, mas ele já caminhava há algum tempo pela estrada desconhecida. Os carros passavam em alta velocidade sem se preocupar com aquele que andava à margem da estrada, à margem da sociedade, à margem da vida, afinal, o que era ele?


Nada, simples assim, nada!


Era somente o Greg!


Ele sorriu e seus olhos vermelhos brilharam intensamente.

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