• J. Robson J.

A Pipa


Encostei o carro no meio fio, enquanto meu filho seguia até a padaria, e vi uma pipa voando com a linha arrebentada. Fiquei admirando seu voo engraçado e suave. Ao sabor do vento, ela se enrolava, desenrolava, enrolava de novo, virava de cabeça para baixo e voltava ao quase normal.


Não pude deixar de imaginar as crianças que estariam correndo tentando adivinhar para onde o vento a levaria. Imaginei os rostos felizes e a corrida desenfreada para chegar primeiro e me vi alguns anos atrás, quando também corria atrás de pipas. As crianças correm atrás de uma pipa sem nem ao menos saber se ela é boa ou não, se é bonita ou não, isso não importa e sim a agradável sensação de correr atrás, e nem sempre o ato de conseguir a danada é o mais importante. Só o fato de poder correr, olhando para o céu e tentando adivinhar seu caminho, já faz a alegria de uma criança.


Eu me lembro das poucas vezes em que fui o vencedor, do quanto era bom, porém, me lembro também que nas muitas vezes em que corri atrás e não consegui o prêmio, não fiquei frustrado. Até havia certa decepção, porque queria pegar a pipa, mas sabia que logo mais uma estaria solta pelos céus e lá estaria eu novamente tentando pegar.


O voo da pipa pelo céu é a essência da liberdade para uma criança. E, agora, olhando para aquela pipa, tudo o que queria era sair correndo e participar da alegre disputa por aquele objeto de desejo. Um objeto que se disputa não pelo valor, e sim pelo prazer de disputar e pelo prazer de conseguir. Apenas isso, simples assim! O que importa é o prazer de correr, de disputar, de adivinhar o caminho e de se sentir o vencedor quando se consegue o objetivo.


Olhando para a pipa, quase conseguia me sentir na disputa e quase conseguia sentir o vento no rosto. Os olhos fixos no céu, passando sem ver pessoas e locais, apenas admirando o voo e imaginando o pulo no momento certo para arrebatar o prêmio. Olhando para ela eu já tentava imaginar o caminho que faria, senti lágrimas de emoção e me remeti a uma época feliz, uma época de brincadeiras e alegrias e me vi batendo palmas nas casas para pedir a pipa que caiu no quintal.


Eu me vi subindo em árvores para pegar a danada que se enroscara lá, me vi correndo solto pelo mato, de olho no céu e de olho nos companheiros que corriam ao lado com o mesmo sonho, com a mesma alegria e com a mesma esperança de pegar a pipa. Pés descalços, sorriso no rosto, vento, mato, natureza, criança, pipa, liberdade! Era como um sonho ou como um transe. A pipa seguia seu caminho e eu até já tinha conseguido ver suas cores, azul e branca, as cores da minha Taubaté.


A rabiola enorme, já toda enroscada em si mesma, ia terminando seu voo. Iniciava a descida e aumentava o frisson da criançada. Mais alguns segundos e ela teria um novo dono, que daria um sorriso feliz e olharia para os amigos com ar de vencedor.


O meu sonho, ou transe, teve um fim quando meu filho saiu da padaria e me trouxe de volta. Olhei para ele e depois para a pipa, ela estava quase caindo. Entrei no carro e saí com a certeza de que tinha vivido mais um pouquinho, parte das minhas alegrias de infância.

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